O CRESCIMENTO DA IGREJA É UM IMPERATIVO

08/7/16

“A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número.” Atos 9:31

Desde que o mundo é mundo mudanças acontecem, mas vivemos um período em que as transformações são brutais. Nunca se experimentou um tempo assim. Na antiguidade, as mudanças não se sobrepunham, ou seja, aconteciam em tempos, momentos e lugares diferentes. Em nossos dias há um bombardeamento diário com informações sobre as mudanças no clima, as crises econômicas, o colapso das cidades, a falência da política, a revolução da internet, o fim das ideologias, a crise do trabalho e a desintegração familiar, tudo ao mesmo tempo e em todos os lugares. O mundo parece um caldeirão em fervura. Tudo está em movimento. 

Outro diferencial das mudanças de nossos dias está na celeridade, na assustadora rapidez. Nunca se experimentou mudanças tão profundas em tão pequeno espaço de tempo. É essa experiência desconcertante que gera muitas e profundas incertezas. Por isso, não está fácil entender este mundão. O mundo está imerso num movimento acelerado e sincronizado.

A igreja também passou por grandes transformações. Em meio a esses movimentos transformadores surgiram os protestantes históricos, de onde vieram os evangélicos pentecostais. No início, os pentecostais estavam mais preocupados em sobreviver do que em expandir seus termos. Contudo, o solo brasileiro se mostrou fértil e o movimento pentecostal cresceu. Os pentecostais se tornaram influentes, mas se curvaram diante do orgulho que o crescimento acelerado produz. Os evangélicos com um todo cresceram e mudaram, aliás, mudaram muito.

Uma das inúmeras mudanças percebidas em nossos dias está em que boa parte, senão a maior parte dos pastores evangélicos estão comprometidos com um único fator, o do “crescimento numérico”. Crescer, quantitativamente tornou-se uma ideia fixa, uma preocupação contínua para grande parte dos líderes evangélicos. Nunca se publicou tanta literatura sobre crescimento de igrejas. Nunca se viu tantas “ferramentas de crescimento” ao alcance das mãos e dos bolsos. 

Quase todos estão em busca de uma fórmula que aplicada à revelia do contexto sócio/espiritual, dê resultados numéricos. Se por um lado a igreja evangélica brasileira caminha a passos largos em termos numéricos o mesmo não se dá no conhecimento bíblico e nem na relação pessoal com Cristo, ou seja, somos uma igreja com quilômetros de extensão, mas com centímetros de profundidade. Em sendo assim, é de se questionar se de fato a igreja está crescendo nas proporções naturais de um ser saudável ou se está se submetendo a uma deformidade progressiva.

O crescimento numérico como motivação única ou central para a expansão da organização gerou problemas colaterais. Isso se deu de três maneiras, se não vejamos: 

a) gerou os sem religião – são aqueles que continuam crendo em Deus, mas se decepcionaram com a instituição, com as falsas promessas de prosperidade e as meninices pentecostais. 

b) fez nascer o sincretismo com a religião romana e com o espiritismo – em nome de um crescimento rápido são copiadas as estruturas, usos e costumes do romanismo e do espiritismo em todas as suas vertentes – há uma constante tentativa para encontrar versículos bíblicos que justifiquem tal prática. 

c) tornou insignificante a ação missionária - quando os evangélicos eram em torno de 13 milhões tínhamos 880 missionários trabalhando em missões transculturais. Depois de pouco mais de 20 anos somos 40 milhões com apenas 3.200 missionários transculturais. A partir do ano 2000, o envio de missionários caiu vertiginosamente. Hoje existe apenas um aumento de 3,5 % em números de missionários enviados anualmente.

As perguntas a serem respondidas são: Buscar crescimento quantitativo é errado? É possível continuar a crescer numericamente sem comprometer a qualidade do rebanho? Crescimento quantitativo e crescimento qualitativo precisam estar em lados opostos? Para responder a essas perguntas vamos, através das Escrituras, observar igrejas que cresceram e souberam crescer sem abrir mão dos princípios e valores do Reino de Deus.

O crescimento da igreja primitiva chamou a atenção do evangelista Lucas, principalmente pelo fato da igreja não dispor de recursos volumosos como dinheiro, meios de transportes (carro, avião), meios de comunicação (radio, televisão, internet). A igreja não dispunha também de grande número de pessoas com excelente formação teológica, templos estruturados, grandes oradores, bons músicos, bons cantores; e como não bastasse, a igreja era terrivelmente perseguida. “Naqueles dias, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os Apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” Atos 8:1

Apesar de todos estes inconvenientes, o crescimento da igreja era de certo modo espantoso. Atos 1:15 diz que o grupo inicial que era de cerca de 120 crentes, Atos 2:41 com a pregação de Pedro logo após o dia de Pentecostes, quase 3.000 crentes, Atos 4:4 fala que o grupo de homens chegava a quase 5.000. A partir daí, Lucas não usa mais a linguagem numérica, e sim, passa a usar a expressão multidão. “E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto de homens como mulheres, agregados ao Senhor”. Atos 5:14 

Diante deste fenômeno, surge-nos uma pergunta: Qual a razão deste crescimento espantoso? Neste pequeno versículo, o Espírito Santo nos concede a graça de perceber alguns fatores que contribuíram para este crescimento numérico que, segundo nos mostra o texto, não comprometeu a qualidade.

1. A IGREJA TINHA PAZ. 

Paz é algo tão importante que a desejamos ao saudar um amigo, um irmão. E o Deus de paz seja com todos vós. Amém. Romanos 15:33 - Ora, o mesmo Senhor da paz vos dê sempre paz de toda a maneira. O Senhor seja com todos vós. 2 Tessalonicenses 3:16

O Livro de Atos tem mais de 1.000 versículos. Não há uma só expressão em todo o livro que nos leve a crer que a igreja não tivesse problemas. Pelo contrário, a igreja enfrentava problemas gerados dentro e fora da comunidade. 

Os problemas externos, tais como, as pressões e perseguições sociais, não impediam o crescimento da igreja. Todos esses tormentos já haviam sido preditos por Jesus: "Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes odiou a mim. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia” João 15:18-19 – sim, o ódio do mundo por Jesus também se derramava sobre sua igreja.

Em meio a todo esse contexto de perturbação, o Espírito Santo fez seu trabalho – plantou na igreja uma atmosfera de tranquilidade tão grande que mesmo sofrendo as consequências do ódio injustificado, ela continuava a crescer como um lírio em meio a um lamaçal. 

É isso que nos faz crer que a única força capaz de deter o crescimento da igreja é aquela gerada nas entranhas da igreja, ou seja, os conflitos internos, as rixas, as rivalidades e as disputas entre os seus próprios membros. 

Como os líderes da igreja lidaram com os problemas causados pelo crescimento vertiginoso? Eles demonstraram senso de coletividade (convocaram a multidão); distribuíram o peso da responsabilidade com a assembleia (escolham dentre vós); não trataram a questão com desprezo (importante negócio); souberam permanecer no ministério que Deus lhes havia confiado (nós oraremos e ministraremos a palavra) - Atos 6.

É um equívoco pensar que para uma comunidade desfrutar de paz se faz necessário que todos tenham a mesma opinião com relação a tudo e em todo tempo. Pode-se discordar, pode-se ter opinião contrária, contudo, sabe-se que tão ou mais importante do que o que se diz é a maneira como se expressa ao dizer. 

O Brasil é o país onde o crescimento evangélico está em forte evidência. Fica aqui a pergunta: que crescimento é esse que ao invés de aproximar os evangélicos uns dos outros os faz cada vez mais distantes? Que ao invés de promover humildade produz orgulho? Que ao invés de estabelecer paz gera é guerra entre tantas e quantas denominações? 

Quando procurarmos no site de busca mais utilizado no mundo a palavra paz o símbolo que mais aparece é a cruz de nero ou o símbolo da paz dos hippies? Daremos ao mundo somente o que temos em nós mesmos.

2. A IGREJA ERA EDIFICADA. 
Embora o termo seja o mesmo usado para o alicerce de uma construção, não se trata de construção convencional, pois eles não dispunham de templos e ou edifícios. A igreja fortalecia dia após dia as suas raízes na fé e no conhecimento do Senhor Jesus. Esta estrutura espiritual dos membros da igreja era de suma importância para o crescimento numérico. A qualidade se mostrou capaz de gerar a quantidade. Eram poucos, no início, mas estavam com as raízes bem arraigadas em Cristo. Não eram levados por qualquer vento de doutrina. Nem mesmo os ventos de perseguição foram capazes de abalar os alicerces espirituais daquela igreja.

Para a igreja de Jesus, crescer não é uma opção – crescer é um imperativo. Sabemos que uma igreja está viva através de seu crescimento. Contudo, a igreja de Jesus não pode crescer de modo desordenado. As balizas do crescimento já foram postas. O alicerce não pode ser mudado, a planta não pode ser alterada - Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo 1 Coríntios 3:11 - Este Jesus é ‘a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Atos 4:11

O que é Pedra Angular? Nas construções antigas, a pedra angular era a pedra fundamental, a primeira a ser assentada na esquina do edifício, formando um ângulo reto entre duas paredes. Servia para definir a colocação das outras pedras e alinhar toda a construção. A pedra angular é o elemento essencial que dá existência àquilo que se chama de fundamento da construção.

Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo juntamente edificados, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito. 
Efésios 2:19-22

3. A IGREJA TINHA TEMOR DO SENHOR. 
Os crentes eram tementes a Deus, havia reverência, respeito a Deus e aos seus profetas, algo que está em falta hoje. 

“E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos”, Atos 2:43. Ouvindo isso, Ananias caiu e morreu. Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido Atos 5:5. E grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos Atos 5:11. Quando isso se tornou conhecido de todos os judeus e os gregos que viviam em Éfeso, todos eles foram tomados de temor; e o nome do Senhor Jesus era engrandecido. Atos 19:17.

Confundimos temor com medo. Em Lucas 1:74 o profeta Zacarias nos diz que Deus nos resgatou das mãos dos nossos inimigos para servi-lo sem medo Lc 1:74. “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor.” (1 Jo 4. 18). Ou seja, o temor a Deus citado na Bíblia não pode significar um tipo medo de Deus que nos faça fugir Dele, antes, é algo que nos aproxima ainda mais de Deus.

Temor do Senhor é um “sentimento” profundo de reverência e respeito ao Senhor. Temer ao Senhor é odiar o mal; é odiar o orgulho e a arrogância, o mau comportamento e o falar perverso.

Toda igreja que se compromete em andar no temor do Senhor cresce. 

4. A IGREJA ERA ASSISTIDA PELO ESPÍRITO SANTO. 
Eles dependiam tanto do Espírito Santo que este livro poderia ser chamado de “Atos do Espírito Santo”. Não adiantará esforços humanos, estratégias e bom planejamento se não houver a atuação do Espírito Santo a igreja não cresce. 

Alguns poderão argumentar que há igrejas em que a atuação do Espírito Santo é desprezada e ainda assim há um crescimento vertiginoso. Isso não pode ser verdade. A explicação para esse fenômeno é que se está a confundir crescimento com inchaço. Inchaço é fruto da desordem interior. É o sinal claro de que algo está errado no organismo. Crescimento verdadeiro só se dará como desdobramento de uma ação do Espírito Santo através de sua igreja.

O crescimento numérico da Igreja primitiva acontecia de forma espontânea, como consequência da fé e da vida na presença de Deus. “Louvando a Deus, e caindo na graça do de todo o povo. E cada dia acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” Atos 2:47.

Procuremos nós também viver como os primeiros cristãos, dependendo mais do Espírito Santo, vivendo em paz e em comunhão com nossos irmãos, vivendo os ensinamentos de Cristo com temor e reverência.

Conclusão: E, não os achando, trouxeram Jasom e alguns irmãos à presença dos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; Os quais Jasom recolheu; e todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus. Atos 17:6-7

A mensagem que colocou o mundo de cabeça para baixo e fez a igreja crescer sem detença foi a que apresentou Jesus ao mundo como Rei. 

Não acredito mais que eu tenha poder suficiente para mudar o mundo, mas tenho a convicção de que posso mudar a minha vida e, quem sabe, através do exemplo influenciar e instigar outros a mudarem também.

Pr. Isaías - Presidente da Igreja Batista da Paz

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